Córtex auditivo: organização

O córtex auditivo do ser humano é uma região definida que constitui 8% do total da superfície do córtex cerebral. Como seria de esperar, identificaram-se notáveis diferenças  estruturais no córtex auditivo das distintas espécies de mamíferos; estas estão presentes mesmo entre os primatas superiores  e os humanos.

Organização do córtex auditivo

O córtex auditivo humano, estudado por ressonância magnética funcional, está subdividida em mais duma dezena de campos auditivos que rodeiam o giro de Heschl. Localiza-se na zona superior do lobo temporal, onde a sua extensão é menor que noutros mamíferos, continua posteriormente pelo giro angular e medialmente na profundidade do sulco lateral (cisura de Sílvio), aonde coincide com os giros transversos de Heschl.
A área AI está situada no terço posterior do giro temporal superior (área 41 de Brodman), adjacente a área de Wernicke (W). A AI, que constitui a região central do córtex auditivo, recebe projeções diretas da via auditiva ascendente; mais concretamente, desde a região ventral do corpo geniculado medial do tálamo.
A área auditiva secundária, AII, de localização mais rostral no lobo temporal, contém a área 42 de Brodman.

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P. Gil-Loyzaga

Esquema da distribuição anatómica do córtex auditivo

Numa visão lateral observa-se a distribuição da área auditiva primária (A-I) e secundária (A-II) e, posteriormente a zona de Wernicke (W). Estabelece conexões com o lobo frontal na áreas motoras da linguagem (a), lábios (b), mandíbula (c), língua (d), laringe (e) e com a área de Broca (B). Uma visão frontal permite identificar a A-I, prolongando-se até ao interior do sulco lateral (cisura de Sílvio), e a zona de Heschl. 1 =Sulco (cisura) interhemisférico. 2 = Sulco lateral (cisura de Sílvio).

Estrutura e circuitos do córtex auditivo: organização colunar

Os neurónios do córtex auditivo primário e do secundário têm um alto grau de conectividade e estão organizados funcionalmente em circuitos de tipo colunar, inicialmente descritos por Lorente de Nó. As colunas do córtex auditivo recebem contactos de ambos corpos geniculados, pelo que todos os neurónios corticais são binaurais. As colunas corticais binaurais funcionam com atividades de somação e de supressão: as de somação recebem aferências similares procedentes de ambos ouvidos, com dominância do contralateral, enquanto que nas de supressão a dominância é ipsilateral.

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P. Gil-Loyzaga

A organização dos circuitos do córtex auditivo humano

Cada neurónio do corpo geniculado medial que projeta para o córtex (C) desenvolve uma árvore de fibras (f-1) que se ramifica na horizontal (vários milímetros) estabelecendo contactos com muitos neurónio piramidais (B) e granulares (C). Este sistema permite a amplificação do sinal procedente da via auditiva e uma melhor análise da sua atividade. Os neurónios da camada IV projetam para neurónios  piramidais da camada III e desde aí a informação distribui-se para as outras camadas (I, II, IV e V) do córtex ipsilateral e para a AI contralateral (através do corpo caloso). Os neurónios da camada I projetam para a camada II e estes para os das camadas V e VI. Os neurónios piramidais das camadas V e VI dão colaterais recorrentes para as camadas III e IV respetivamente. Projetam fibras eferentes (f-2) para o corpo geniculado medial, e para a camada V também do colículo inferior.

O neocórtex humano apresenta diferenças notáveis com o de outras espécies, incluindo os primatas, ao contrário de zonas mais baixas da via auditiva (tronco cerebral) que são muito similares. Por isto é mais fácil extrapolar, entre animais e humanos, os dados de estrutura ou função do tronco cerebral que os do neocórtex.
Não obstante, a existência de seis camadas corticais é similar em todos os mamíferos, ainda que possa haver diferenças no tipo celular específico mais frequente. Na espécie humana, os neurónios piramidais (incluidos todos seus tipos) são os mais abundantes (85%) do córtex auditivo primário, os restantes (15%) são multipolares ou estrelados. Também se encontram neurónios piramidais invertidos (de Martinotti) e as características células "em candelabro". 
 A maioria das fibras ascendentes procedem do corpo geniculado medial e fazem contacto com os neurónios piramidais da camada IV, ainda que também sobre outras camadas. No entanto, esses contactos são só 20% das fibras excitadoras que projetam sobre estes neurónios corticais, já que 80% procede de outros neurónios corticais ipsilaterais.

Última atualização: 2016/12/09 9:42