Cérebro Auditivo

Enquanto que a cóclea humana está completamente desenvolvida à nascença, as vias auditivas desenvolvem-se mais lenta e progressivamente, começando no tronco cerebral para terminar no córtex. Em função do critério escolhido, pode-se dizer que o desenvolvimento está completo entre o 4º e 8º ano de vida.

 

Desenvolvimento comparado da cóclea e do córtex auditivo  

 

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Desenvolvimento dos neurónios do córtex auditivo primário

Cortexa

R. Pujol

Cortexb

R. Pujol

 Estas duas imagens mostram, com a mesma ampliação, neurónios do córtex auditivo primário no momento de entrada em função da cóclea (à esquerda; cérebro de um feto com 5 meses de gestação) e no final do seu desenvolvimento (à direita; Cérebro humano de 6 anos). Entre os dois estadios, note a diferença de desenvolvimento dos neurónios e sobretudo dos seus prolongamentos dendríticos e espinhas dendríticas (o que equivale ao número de sinapses); para este desenvolvimento é necessário que a cóclea funcione normalmente. Se a cóclea for deficiente (surdez congénita), o córtex auditivo vai permanecer num estado imaturo próximo do apresentado na figura da esquerda.

 

Papel da estimulação

Durante os primeiros anos da vida, a presença de estímulos é de importância capital; O córtex auditivo necessita que a cóclea funcione perfeitamente para se desenvolver normalmente. Todas as anomalias do funcionamento coclear durante este período vão-se traduzir em défices dos centros, particularmente a nível cortical. Passado este período, a correcção das anomalias da cóclea (próteses auditivas, implantes cocleares) não se traduzirão em melhorias sensíveis do funcionamento cortical. Os dois esquemas apresentados abaixo resumem a estreita dependência entre o cérebro sensorial e o seu receptor (regra que é comum a todos os sistemas sensoriais).

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O receptor (cóclea) desenvolveu-se normalmente pelo que o cérebro sensorial (córtex auditivo) vai atingir o máximo desempenho.

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O receptor (cóclea) não se desenvolveu normalmente (por exemplo, falta de células ciliadas externas) pelo que o cérebro sensorial só poderá atingir 50% do seu desempenho.

 

 

Aplicações

Esta regra do papel das estimulações no desenvolvimento e estruturação do sistema nervoso central, particularmente durante os primeiros anos de vida, tem consequências práticas:

-A colocação de próteses auditivas deve ser realizada o mais precocemente possível, desde que haja indicação para isso, mesmo tratando-se de implantes cocleares, se houver indicação para isso.
 -Todas as causas de surdez de transmissão (otite sero-mucosa, malformações, etc.) devem ser tratadas precocemente e de forma eficiente.
 -Durante este período é recomendável a maior estimulação auditiva possível, devendo a aprendizagem de línguas estrangeiras e de instrumentos musicais começar o mais precocemente possível, até porque será muito facilitada.

 

Plasticidade no adulto

Se a plasticidade do cérebro durante o desenvolvimento é impressionante, ela é ainda possível na idade adulta, particularmente em duas situações: a aprendizagem e a reparação pós-lesional.

-Mais longa e difícil que durante o desenvolvimento, a aprendizagem do córtex auditivo mantém um desempenho considerável, desde que as mensagens auditivas chegem de forma normal.
 -A plasticidade pós-lesional é um facto, se bem que menos evidente. Dois exemplos: se for colocado um implante coclear a um adulto, pouco depois deste ficar surdo, os resultados são frequentemente espectaculares, o que demonstra a capacidade do cérebro em se adaptar a este "novo ouvido", ainda que este seja bem menos eficaz que a cóclea perdida. Da mesma forma, na presbiacúsia os neurónios corticais que já não podem processar os sons agudos (pois a cóclea já não os codifica), "basculam" para processar sons de frequências inferiores, melhorando a sua percepção.

Última atualização: 2016/27/12 8:24